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Um estranho no ninho

Quando nos mudamos para a cidade, em 1942, eu já tinha oito anos, analfabeto total, e só conhecia a letra O  por ser igual a argola do laço, visto que naqueles fundos não havia escola. Um verdadeiro potro xucro, só duas vezes estivera no “povo”, lugar que era o mais caro objeto de consumo da peonada, por causa das atraentes “bailantas” povoadas de “chinas.

Estas rudes condições, lugar comum então, foram determinantes da nossa mudança, que visava a tirar, eu e irmãos, das escuras trevas da ignorância e inserir-nos nas benesses urbanas da época. No meu modesto entender, não carecia tanta preocupação, tinha vivido até então a vida pedida a Deus, fazendo aprendizado rural bem abrangente, ao qual só faltavam poucas iniciações, que, com a mudança, seriam prejudicadas.

Em projetos campesinos futuros, ainda faltava aprender a laçar, domar e  tropear gado gordo para o “saladeiro”, planos de aprendizado e prática que ficavam adiados com a mudança.

A troca foi problemática para mim, aos meus irmãos menores, por sua pouca idade, nem tanto. Aclimataram-se rápido. Minha primeira dificuldade foi a implicância dos citadinos chamando-me de “guizo”, denominação pejorativa dos oriundos do campo, também equivocada e depreciativa, parece que me vendo usar lã, pensavam que era ovelha.

Dos colegas, havia um mais agressivo, que não só inticava comigo, como prometia me bater, mostrando com soco na ponta do próprio queixo, o que pretendia fazer comigo. Se fosse agora, diria que eu estava sofrendo bullying, termo estrangeiro designando hoje esta ação hostil e intimidativa, comum a todos os tempos. A qual cabe reação a altura do desafio sofrido, pois guri que se “achica” acaba sempre em situação de inferioridade.

Estas provocações foram continuadas, em vista disso, eu, por cautela, tratava de sair antes dos outros ao acabar a aula. Desta forma, livrando-me do indesejado enfrentamento.

Um belo dia facilitei, quando vi, estava com meu adversário na frente, que veio para cima de mim cumprir o que havia prometido. Como não havia saída, tratei de me defender, não teve nem graça, depois de bem aplicados sopapos em meu desafeto, coloquei-o a correr.

O episódio representou a virada do jogo, daí em diante quem perseguia era eu, aliás, com enorme vantagem, por ser bem mais forte, fato que nem eu, nem o outro guri tínhamos a menor ideia até aquela hora. Agi bem como boi manso de canga, que desconhece a própria força, enquanto ele “enfrenou por baixo da língua”. Também no episodio aprendi melhor avaliar o meu potencial, para não “pagar micos” futuros e evitar o erro de meu desafeto.

Esta vitória fulminante significou também o início da minha inclusão na casta do povo, que só  seria definitivamente consolidada, após demonstrar outras habilidades em atividades inerentes a guris. Mas, em princípio, embora com estas burocráticas pendências, já podia me considerar “povoeiro”, não mais um “guizo”.

Sinal evidente desta abertura, na sequência desse embate, aprenderam meu nome, deixando de me tratar daquela forma discriminatória, que era  como todos me chamavam até então, sem dúvida, cresci bastante na parada.

Nestes novos tempos, fui “despacito” me aquerenciando a novos costumes, nenhum deles tão apreciado como ouvir rádio, que recém estava conhecendo. No campo ninguém tinha.

Logo tornei-me grande apreciador das novelas que, na época, como agora na TV, eram sua grande estrela. Papai, no entanto, tinha outra atração, as notícias da guerra, fornecidas pelo Repórter Esso, “o primeiro a dar as últimas”.

Ao começo do conflito, meu velho, por entender a importância dele, para se manter a par, assinou o Correio do Povo, que vinha pelo trem até a estação do Itapevi, aonde um “próprio” toda semana ia buscar os exemplares. Esta assinatura era de sociedade com o “seo” Vivi, dono do bolicho da estação, mais os irmãos Bettega na parceria, época em que todo centavo de despesa era medido, que liam até papai mandar buscá-los.

Como não havia por lá nenhuma informação dos fatos ocorridos neste intervalo de tempo, as noticias lidas por meu pai, para todos os efeitos, eram consideradas atualíssimas. Que diferença bárbara para hoje, quando tudo se sabe na hora, que bem no fim nem sei se é bom ou é ruim.

Na cidade, ele e eu estávamos sempre a par das novidades,  tornando-me bom conhecedor de todos os episódios da guerra, expert no assunto, bem informado pelos seguidos noticiários que ouvia.

No mais, seguia me familiarizando com a urbe alegretense, onde em farmácia central, tinha uma Cruzeira de mais de metro, a cobra do Dr. Carlos Ribeiro, morta, imersa em líquido conservante dentro de um vidro no balcão. Ela era a grande atração turística da gurizada, porém, por precaução, só olhada de longe.

Este cuidado era pela cobra em si e pelo dono da farmácia, cidadão tido como muito brabo e irritado, do qual diziam, talvez exagerando, que dava tiro no vento Norte, tão incomodado ficava com esta ação eólica.

Neste momento, eu já era bem relacionado, num comportamento típico de guri, exagerava nas histórias do campo, valendo-me da desinformação dos meus novos amigos. Para mostrar superioridade convenci os outros que, na fazenda, ela seria igual aos filhotes de lá, contando de uma que papai matou dentro de casa, só dobrando sua dimensão.

A minha inclusão na turma do “povo” foi desenvolvendo-se naturalmente, com o aprendizado de diversas práticas, indispensáveis a guri atuante e participativo. Em pouco tempo, eu já era bom jogador de bolita e atirador de pião, como começava dar os primeiros passos no futebol, vôlei e basquete, dos quais nunca passei de discreto atleta. Também nunca aprendi a jogar bilboquê e não gostava de cinco marias, que eu considerava jogo de mulher.

Paralelamente, ia aprendendo outras atividades altamente incluidoras, empinar pandorga, roubar frutas em pomares alheios e fumar cigarro Friné, comprado a varejo no “seo” Bechara. Também caçar passarinhos com bodoques de feitio próprio, criar pombas de casa, ocupação muito valorizada, em sendo correio ou capucho.

Igualmente, acompanhando outros guris mais audazes, comecei exercer atividades radicais e aventurosas, como a exploração dos subterrâneos de Alegrete, percorrendo as galerias de escoamento das águas da chuva.

Essas obras podiam ser chamadas de Underground, já que estavam na Londres do futuro, como assim foi denominada nossa cidade no passado, por suas cerrações ou fogs crioulos. As vias ocultas não tinham a extensão, nem charme e renome turístico, do Tube de Londres ou do Metrô de Paris, que tem até excursão guiada.

Na verdade eram bem mais modestas, começavam na Avenida Freitas Valle, indo por baixo da calçada mais quatro quadras até a ferragem Giacomoni, já perto dos trilhos do trem. A percorrida dava status a quem a cumprisse, não era para qualquer um, aumentando o prestigio com as gurias. Se bem que algumas delas, mais molecas, também faziam esta desafiante aventura.

A proeza tinha sabidos riscos, para evitar a emanação de gases tóxicos, aprendi a fabricar máscaras protetoras, usando para isso as tampas de caixas de talco, devidamente ajustadas ao nariz por tiras de elástico. Precaução, talvez, sugerida pela guerra, onde o uso de gás era um temor de ambos os lados, fato sabido por nós todos.

Dentro destas radicais aventuras, faltou uma, a qual ficou só no projeto, por bons motivos, entre eles porque constava que o nosso objetivo fosse mal assombrado. Tratava-se do chalé dos Portella, luxuoso e abandonado imóvel da cidade alta, que sabíamos ter um túnel que o ligava ao outro lado da rua, o qual queríamos explorar, para saber qual objetivo de sua construção. Muito depois, já homem feito, quando da construção do Colégio Demétrio Ribeiro, descobri a sua finalidade, saída de emergência para alguma necessária evasão dos proprietários do chalé.

No futebol de botão, meu clube era o Botafogo, naquele tempo times gaúchos eram tidos como de segunda, com atuação razoável, ganhando alguns torneios. Os craques eram quase todos fabricados por mim, botões de casacões, origem inconfessável, mais galalite, como também de casca de coco.

Nunca aprendi andar direito de bicicleta, talvez porque não tivesse uma, a usada era da minha irmã, surrupiada dela nos momentos propícios. Estes, por sua atuante vigilância, eram poucos.

Das doenças regulamentares de guri, eu já havia tido sarampo e caxumba, ambas de resguardo longo para evitar sequelas. Catapora não, pois era vacinado. Meu grande problema então, não ser, ao contrário da maioria dos guris, operado do apêndice, como igual nunca ter quebrado nada, nem braço, perna ou clavícula, fatos que podiam depreciar, negativamente, o meu status de macho.

No primeiro Natal passado na cidade, festa não comemorada na campanha; recebi alguns presentes, entre eles, um especial, bola de futebol, a posse da qual me garantia muitas e desejáveis prerrogativas. Entre elas, a definitiva inclusão entre os povoeiros, como um deles, escalação certa no time, bem como a escolha da posição em que queria atuar, pois em sendo o dono da bola, tinha direitos inquestionáveis inerentes a sua propriedade.

Para ter mais tempo de exercer todas as iniciações, tratei de aprender o mais rápido que podia a “acolherar” as letras, coisa que até foi fácil. No começo, senti-me perdido, vendo a minha frente aquele monte de símbolos desconhecidos. Pela necessidade, tratei logo de decifrá-los, para me sobrar tempo para atividades mais gratificantes.

O progresso veio logo, em pouco tempo, já estava escrevendo e lendo, mais importante ainda, gostando muito disto, dando-me conta de que a nova habilidade poderia criar amplas possibilidades. Entre elas, comunicar-me por escrito com as gurias da aula, de viva voz ainda não me animava, notando logo que estava agradando. Em outros estímulos não havendo, só este bastaria, incentivando-me a estudar cada vez mais.

Este primeiro ano, ao contrário do que pareceu de saída, passou muito rápido, mais ainda depois da minha inclusão no bando, logo vieram as férias de verão, quando fui mandado para a fazenda reforçar a equipe de campeiros. Ai também o tempo andou ligeiro, logo estava voltando para os estudos e, sinal dos tempos, com uma pontinha de saudade deles, com o coração dividido entre o antigo e o novo.

Como era costume na época, na entrada do inverno seguinte, a minha mãe aproveitou entrega de boi gordo no Armour, em Livramento, indo com papai e levando-me junto, para fazer compras de artigos de lã em Rivera, muito melhores e mais baratos no Uruguai, então.

Acho que fui levado para ser usado como gabarito, tudo que servisse em mim, com desconto a menor, vestiria bem os outros. Esta é uma baita vantagem, sendo o irmão maior, tudo que usa é de primeira mão, já o resto da prole nem sempre. Normalmente, herdeiros dos mais velhos.

O mais importante foi que esta incursão acabou sendo minha primeira viagem internacional, quando também aprendi que havia pessoas que falavam diferente da gente, estas no caso hablavam.

O Brasil de lá para cá progrediu muito, não tanto quanto sua população necessita e merece, porém bem mais que os hermanos, nossos vizinhos, os quais, então, nos levavam uma “légua de beiço” na frente, diferença hoje inexistente.

É tema de risadas hoje, pergunta descabida, mas pertinente na época, quando o comerciante uruguaio indagava como pagaríamos as compras, se em Pesos ou Cruzeiros:

-Paga en oro o papel, señor? *

* Este causo, escrito em Maio de 2.007, junto com o seguinte, narra o inicio da minha inclusão na vida citadina, quando comecei a acolherar as letras. Fase penosa, traumática até, mas memorável, depois dos fatos passados. Escrita para os netos saberem que o vovô aqui passou muito trabalho na vida, quando, no passado, não havia esta moleza atual.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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