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O segredo do Cabeleira

Eleição era uma coisa sagrada nos anos 1950 e 1960, mais que hoje. Não se podia nem beber 24 horas antes e 24 horas depois do dia da eleição.

Algumas vezes, até 48 horas antes e depois, dependendo do histórico de violência na cidade. E isso incluía a proibição de venda em bares e restaurantes.

Pois hoje você pode até voar bêbado que ninguém pode ir preso antes e depois do Dia D. Naquela época, as pessoas iam de gravata escolher seus candidatos.

Desmoralizaram as eleições, meu chapa. A primeira vez que votei, tremia mais que na formatura do ginásio, hoje segundo grau.

Outra coisa que achincalham com vídeos e gritarias. Pior, os discursos hoje são mais longos que o curta-metragem alemão. Curta germânico que se preze tem que durar mais que discurso do Fidel Castro quando ainda não estava com aquele abrigo da Adidas, que deve ser do tempo do Manto Sagrado vestido por Jesus.

Hoje boa parte vota por obrigação. Deus me livre jogar voto fora em nulo ou branco. E quem não votava tinha que dar explicação para um severo juiz.

Nos dias que correm, não precisa nem explicar. Então danou-se a solenidade. A mesma solenidade com que o biscateiro Cabeleira, um pau d’água da Montenegro dos anos 1960, explicou ao juiz L. como tinha arrumado bebida no dia em que se botava voto na urna.

Cabeleira enchia tanto o saco do magistrado que, um dia, mandou colocar o nome dele no cartaz de alerta da lei seca, que a Tipografia Lutz distribuía por toda a cidade. Na parte em que estava escrita a proibição de vender e consumir álcool, o juiz botou “principalmente para o indivíduo de alcunha Cabeleira”.

Pois não é que, às nove da manhã, o Cabeleira apareceu bêbado no Café Central? Isso bem na hora em que o meritíssimo adentrava o recinto para tomar um cafezinho:

– Mas que coisa, seu! Onde é que arrumaste a bebida, senhor Cabeleira?

O citado cidadão olhou-o com um ar de desprezo explícito.

– Ué! Pra mim já arrumei, doutor. Se o senhor quer beber, se vira…

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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