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O mistério do gargalo

“…uma daquelas facas tipo Rambo”

Na segunda metade dos anos 70, existia na rua Cristóvão Colombo, perto da Ramiro Barcelos, um bar misturado com boate, o Sans Chiquè. No inverno, aos sábados, a casa oferecia uma feijoada, com os acompanhamentos de praxe mais as mulheres da casa. Desnecessário dizer que nunca tanta gente comeu feijoada, mesmo com risco de uma posterior congestão. Uma turma do Bar Pelotense combinou ir em bloco num sábado. O primeiro que lá chegou não encontrou ninguém e foi direto para o bar buscar contato com o resto da turma. Pegou o telefone e ligou para o primeiro. Do lado, um gambá equilibrava-se perigosamente no tamborete. Meio-dia e o cara já estava de porre. Atrás do balcão estava a gerente, a Verinha Biônica, porque era estrábica. No reservado da sobreloja, o dono do lugar estava com Chico Anísio – a dupla dedicava-se à compra e venda de cavalos. Lá pelas tantas, desceu um esbaforido garçom para dizer que Chico Anísio queria, pra ontem, um uísque canadense. O freguês ao telefone olhou a prateleira das bebidas e disse para Verinha que não tinha uísque canadense, o mais perto disso era um Cutty Sark. O garçom não teve dúvidas. – Vai esse mesmo. A garrafa baixou. O nervoso garçom não conseguia abrir o lacre. Não teve jeito. Verinha, o gambá e o freguês ao telefone observavam a cena. – Usa uma faca – aconselhou o gambá, num ângulo de 45 graus. A gerente tirou da gaveta uma daquelas facas tipo Rambo. O garçom calçou a garrafa com uma mão e com a faca tentou tirar a cápsula. Má idéia. Para surpresa de todos, saiu não só o lacre como todo o gargalo da garrafa a partir da base. O vidro estava coladinho da Silva. Eram tempos de uísque caríssimo, amplamente falsificado de tudo quanto era jeito. Aí o bêbado não agüentou: – Como tiraram eu já vi. Eu queria saber como é que botaram.

 

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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