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O exame dos ovários

Nos anos 1970, quando trabalhei na agência de propaganda SGB paralelamente com a então TV Difusora, havia um boy que era meio atrapalhado. Sabem o personagem do Peter Sellers no filme “Um convidado bem trapalhão”? Pois era ele ao cubo.

Com sua voz esganiçada de Pato Donald coroando as trapalhadas, era especialista em humor involuntário. Falava com tantos erros que um mendigo corrigiria seu português.

Perdia chaves, documentos, servia chá em vez do café. Uma vez, derrubou um cristal caro da mesa do presidente da agência. Então, ao se abaixar para juntar os cacos, derrubou com a bunda uma caríssima e frágil escultura.

Passam-se os anos e estou na recepção da agência Publivar, do querido amigo já falecido Salimen Jr., ligando para o médico da minha mulher para saber no que deram os exames dela – ele suspeitava de problema nos ovários – quando entra o ex-boy.

Terno preto impecável, gravata Hermès que o Jorge Gerdau acharia cara, pastinha 007 com segredo. Parecia, e era, um executivo de proa.

Tapei o bocal do telefone e falei “olá”. A resposta veio com uma voz inacreditavelmente solene, e grave.

– Como vai, doutor Fernando? Suponho que tudo esteja bem. Embora, eu tenha captado fiapos de sua conversa com, suponho eu, seja um médico. Alguma coisa mais séria?

Inacreditável. Parecia a versão em português de Sir Laurence Olivier falando. Neste preciso momento o doutor me avisa que os exames deram bão, como diz o povo. Desligo e aperto sua mão.

– E aí, meu chapa? Que bom te ver assim distinto. Não, não é nada grave. O médico achou que minha mulher tinha alguma infecção nos ovários. Mas foi alarme falso. Tudo está bem.

O ex-boy balançou a cabeça.

– Ainda bem. Folgo em saber que sua esposa não teve algum diagnóstico mais grave. A vida tem lá seus percalços, doutor Fernando. E o imponderável pode atacar a qualquer momento. Eu que o diga.

Então, baixou a cabeça e falou baixo no meu ouvido para a recepcionista-telefonista não ouvir.

– Eu mesmo tive um sério problema nos meus ovários. Foi coisa muita feia, tomei toneladas de antibióticos. Mas hoje estou bem.

Fiquei olhando fixo para ele. Assim fiquei até ele ser chamado para uma reunião com o mídia da agência. Ainda permaneci sentado por um bom tempo. Depois fui ao banheiro e fiz um autoexame nos meus ovários. Vivendo e aprendendo.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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