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Historinha de sexta

Nas minhas perambulações pelas quebradas do mundaréu, exerci tarefas paralelas ao jornalismo. Mas sempre com saudades do que, no jargão das redações, chamava-se “as pretinhas”, as teclas das máquinas de escrever.

Acreditem, rapaziada, elas existiram e não são lenda urbana, como disse certa vez um estagiário ao saber delas. Opinião tola que mudou quando viu uma de verdade.

Já falei dos meus tempos de ator de comerciais de TV, sendo que um deles, em que fazia o papel de um vendedor de terrenos no meio das dunas de Cidreira, levou o empresário dos carnês Davi Berlim a bradar que eu merecia o Oscar de Melhor Ator. Infelizmente, a Academia de Hollywood não o ouviu. Infelizmente.

Eu que gosto de escrever curto, algo que aperfeiçoei ao longo dos anos, digo-vos que um comercial é o falar curto na telinha. Você tem 30 segundos para dar o recado do anunciante, às vezes menos. Mas existe o contrário.

Há políticos que têm um vozeirão e parecem gostar do som da própria boca. Mas, no fundo, são vozes à procura de ideias. O contrário exige prática e habilidade, como em uma enchente do Rio Caí, nos anos 1960, que ameaçava o cais de Montenegro.

O governador da época mandou um assessor percorrer as cidades ao longo do rio e pediu que fizessem um resumo por telegrama, muito caro na época. O assessor foi reduzindo, reduzindo até que ao chegar em Montenegro chutou o balde: Cais Caí Caiu, ass Caio.

O uso de abreviações e siglas também é uma técnica, desde que o autor seja bom em arrumar as palavrinhas. Até meados dos anos 1960, os ofícios protocolares levavam antes da assinatura a expressão amos.atos.et obros. “amigos, atentos, e obrigados”.

Hoje temos saudações até demais, como “abs e “abr “. No meu entender, um exagero. Você mandou um cara pro raio que o parta e assina “abr”, qual é?

Em termos de áudio para resumir a ópera, o campeonato é do galo carioca de favela. Quando os outros cantam no alvorecer, ele apenas ergue uma perna em sinal de OK.

Nos meus tempos de colégio, fazia-se concurso para quem escrevesse a maior besteira e grafia errada com um mínimo de palavras. Acho que a melhor delas nunca foi suplantada:

– Os quatro cavalheiros do Apocalipse eram três: Esaó e Jacú.

Um padre que ouviu a piada achou que era blasfêmia e tomou as devidas providências. Mas essa já é outra história.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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