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A boate Babalu

Nos altos do antigo abrigo dos bondes, na Praça XV, Centro de Porto Alegre, existiu uma estranha boate que fechou as portas no final dos anos 1960. Aliás, boate ou cabaré com o nome de Babalu era tão comum que até a Rede Globo bota esse nome quando pinta cabaré na trama da novela.

https://prefeitura.poa.br/iptu

Lembro de ter ido lá poucas vezes, no início dos anos 60. Coisa meio maluca. O assoalho era de madeira e rangia quando os pares dançavam. Então, era algo onírico, estranho, no sentido que se usa no espanhol.

Nunca conheci uma mulher, profissional ou de meio expediente que fosse da casa. Mas eu sobrevoava outras paragens noturnas, então. O fato é que é uma das pouquíssimas coisas que minha memória tenha retrato completo, como um retrato falado que, ao mesmo tempo, parece e não parece com o retratado.

Todos os cabarés tinham dono ou dona e, de uma forma ou outra, estavam na Junta Comercial. Não da Babalu.

O que eu lembro muito bem era o  telefone do ponto de táxi que ficava na ponta do abrigo. Durante anos e anos, volta e meia aquela campainha de telefone antigo se fazia ouvir no Chalé da Praça XV. Alguém chamando, que achou num guia telefônica antigo o número de um ponto de táxi que não existia mais. Ou, o fantasma de um taxista procurando desesperadamente algum tipo de contato com algum colega, talvez tão fantasma quanto ele.

O fato é que ninguém nunca atendeu, pelo simples fato de só ter sobrado a campainha. O aparelho em si tinha sido retirado quando o ponto foi desativado.

Era essa a sensação que eu tinha sentado em uma mesa de janela do Chalé quando a ouvia. E a ouvia bem porque nessas horas o bar estava quase vazio. Além disso. à noite, o som se propaga melhor.

Fico pensando se aquele que ligava inutilmente procurava não um colega de profissão, e sim outros fantasmas da noite e da boemia. Essa estranha gente da noite, cuja solidão era inversamente proporcional aos guizos falsos da alegria que chacoalharam.

Fernando Albrecht

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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